
Quem corta uma laranja sanguínea pela primeira vez costuma dar um passo para trás. Por fora ela parece uma laranja comum, às vezes com um rubor avermelhado na casca. Por dentro, a polpa vai do rosa ao vinho, como se alguém tivesse pintado a fruta. O cheiro, porém, é de laranja: doce, fresco, com um fundo levemente frutado. Este texto conta de onde ela vem, por que ela tem essa cor e como usar o hidrolato com segurança.
Quem é a laranja sanguínea
A laranja sanguínea é a mesma espécie da laranja-doce que conhecemos: Citrus sinensis, da família das rutáceas, a família dos cítricos (limão, tangerina, toranja, bergamota). Não é uma espécie à parte, e sim um grupo de variedades da laranja-doce que acumulam um pigmento vermelho na polpa e, em alguns casos, na casca.
A laranja-doce em si é antiga e é fruto de um cruzamento natural entre a tangerina e o pomelo, ocorrido no sul da China e regiões vizinhas. Dali ela seguiu pelas rotas do comércio até o Mediterrâneo, e os navegadores portugueses tiveram um papel grande em espalhá-la pelo mundo, inclusive para o Brasil.
De onde vem a cor
O vermelho da laranja sanguínea vem das antocianinas, pigmentos hidrossolúveis que dão cor ao mirtilo, à amora, à uva roxa e ao repolho roxo. A laranja comum não as produz. A sanguínea, sim, e a razão é uma mutação genética natural: pesquisadores do John Innes Centre, no Reino Unido, mostraram em 2012 que um pedaço móvel de DNA (um retrotransposon) se instalou ao lado de um gene chamado Ruby, que comanda a produção desses pigmentos.
O detalhe mais curioso é que esse interruptor só liga com o frio. Sem noites frescas durante o amadurecimento, o gene fica quieto e a polpa sai alaranjada, quase igual à de uma laranja comum. É por isso que a laranja sanguínea é tão ligada a poucos lugares do mundo.
Laranja sanguínea da chácara cortada ao meio, na mão de um visitante, com a polpa vermelho-alaranjada e as sementes à mostra
Esta é uma das laranjas sanguíneas da nossa chácara, aberta durante uma visita, em agosto. A cor varia de fruta para fruta e de safra para safra, justamente porque depende do frio.
Origem: a Sicília e o Monte Etna
A sanguínea de que mais se fala nasceu na Sicília, na Itália, e a região em volta do vulcão Etna continua sendo a principal produtora: dias quentes e noites frias, em solo vulcânico, são exatamente o que o gene Ruby pede. Os italianos chegam a chamá-la de "ouro vermelho" da ilha.
Quando a mutação apareceu é assunto em aberto. Há quem associe a fruta ao período árabe na Sicília, a partir do século IX, mas essa data vem mais de divulgação do que de fonte primária, e os registros mais seguros são bem posteriores. O que os estudos genéticos indicam é que a cor surgiu mais de uma vez, em lugares diferentes: a origem siciliana, outra ligada à Espanha e uma terceira na China.
As variedades mais conhecidas são três:
- Tarocco. A preferida dos sicilianos, doce, com pouca acidez e polpa rajada de vermelho.
- Moro. A mais escura, de polpa vinho intenso e sabor mais marcado, com um toque que lembra frutas vermelhas.
- Sanguinello. De origem espanhola, de casca mais avermelhada e polpa com manchas de cor.
Fora da Sicília ela é plantada em lugares como Espanha, Estados Unidos, Japão, África do Sul e Irã, mas nem todo ano a cor aparece. Em clima quente demais, a fruta pode amadurecer sem pigmentar.
Laranjeira com frutos maduros entre folhas verdes, sob o sol
A planta e a fruta
A laranjeira é uma árvore de porte pequeno a médio, de folhas brilhantes e verde-escuras, e flores brancas e muito perfumadas, as flores de laranjeira, que dão origem a outro aroma bem conhecido. A fruta é rica em vitamina C e, no caso da sanguínea, ainda leva as antocianinas, que são antioxidantes estudadas em laboratório. Vale a honestidade de sempre: comer a fruta é uma coisa, usar o hidrolato é outra. Os benefícios da polpa não se transferem automaticamente para o frasco.
O hidrolato de laranja sanguínea
Da destilação saem dois produtos ao mesmo tempo. O óleo essencial leva as substâncias lipossolúveis, e o hidrolato leva as hidrossolúveis, num perfil mais leve e suave, com o frescor cítrico da planta e quase nada da concentração do óleo. Contamos essa diferença com mais calma em óleo essencial ou hidrolato, qual a diferença.
O que se atribui ao hidrolato de laranja sanguínea vem principalmente do uso tradicional dos cítricos e da experiência de quem usa. Não há estudos clínicos específicos sobre o hidrolato dessa variedade.
Frasco âmbar com válvula spray sobre uma bandeja de madeira, ao lado de plantas secas
Para o corpo e a mente
- Revitalizante. O aroma cítrico é associado à sensação de energia e alerta. Um borrifo no rosto ou no ar, de manhã ou numa tarde de cansaço, costuma ser bem recebido.
- Calmante. Ao mesmo tempo, o aroma doce da laranja é tradicionalmente ligado ao relaxamento. Em aromaterapia, os cítricos aparecem tanto para animar quanto para acalmar, e a resposta varia de pessoa para pessoa. Sobre por que o cheiro mexe com a emoção, escrevemos em aromaterapia e sistema límbico.
Para a pele
- Tônico facial. Suave o bastante para ser borrifado no rosto depois da limpeza, para refrescar e deixar a pele preparada para o hidratante. Serve para a maior parte dos tipos de pele, mas teste antes em uma área pequena.
- Limpeza e frescor. Pelo uso tradicional, é considerado de ação antisséptica leve, útil para refrescar a pele. Isso não o transforma em tratamento para infecção ou acne.
- Desodorante leve. Borrifado nas axilas depois do banho, ajuda a deixar a pele fresca e perfumada. Não é antitranspirante: ele perfuma e refresca, não impede o suor.
Para a digestão
Há quem tome o hidrolato diluído em água depois das refeições, pelo uso tradicional dos cítricos. Aqui vale cuidado: uso interno de hidrolato só com água de procedência conhecida e orientação profissional. Não é algo que recomendamos por conta própria.
Para o ambiente
Borrifado no ar, em roupas de cama ou no carro, ou no difusor ultrassônico, é uma forma simples de levar o aroma de laranja para o dia a dia.
O óleo essencial: já diluído e pronto para usar
Também temos o óleo essencial de laranja sanguínea (Citrus sinensis), em versão já diluída: o óleo essencial de laranja sanguínea (diluição 2% em TCM), frasco de 5 ml. São duas gotas de óleo essencial para cada 5 ml de TCM, o triglicerídeo de cadeia média, um óleo vegetal fracionado, leve e que quase não tem cheiro. Assim você não precisa fazer conta nem medir gota: a diluição já está feita. Para entender como e por que diluímos, veja nossa página de diluições de óleos essenciais.
Uma diluição de 2% costuma ser indicada para uso no corpo, em massagem e em aplicações localizadas. Mesmo assim, faça o teste de sensibilidade antes, não use nos olhos, nos ouvidos e nas mucosas, e lembre que o óleo essencial de cítricos pode deixar a pele mais sensível ao sol: evite se expor ao sol logo depois da aplicação. O óleo essencial nunca deve ser ingerido.
Cuidados de segurança
- É água e estraga. Guarde na geladeira, em frasco com válvula spray (sem molhar o dedo), longe da luz, e descarte se ficar turvo ou mudar de cheiro.
- Faça um teste em uma área pequena da pele antes do primeiro uso, esperando algumas horas, principalmente se você tem alergia a cítricos.
- Evite olhos, ouvidos e mucosas.
- O óleo essencial de cítricos pede mais cuidado que o hidrolato: sempre diluído, nunca ingerido, e atenção à fotossensibilidade, porque alguns óleos cítricos podem manchar a pele exposta ao sol.
- Animais de estimação. Aromas cítricos podem incomodar gatos e cães. Cuidado com difusor e borrifo em ambientes fechados onde eles ficam.
Este texto não substitui uma avaliação individual. Em caso de dúvida, consulte sempre um profissional da área, principalmente se você está gestante, amamentando, pensa em usar em crianças pequenas ou tem uma condição de saúde diagnosticada. Hidrolato não substitui tratamento prescrito. Os laudos de cada lote estão na nossa página de cromatografias: o que está no rótulo é o que tem no frasco.
Fontes
- Butelli, E. et al. Retrotransposons control fruit-specific, cold-dependent accumulation of anthocyanins in blood oranges. The Plant Cell, 2012.
- John Innes Centre. Blood Oranges.
- Gota de cura. Óleo essencial ou hidrolato, qual a diferença.



